Limpando os Degraus


Há quem diga que na Bahia, a lavagem das escadarias das igrejas é um grande evento. O acontecimento se dá quando aquele aguaceiro leva tudo embora, degrau por degrau, a sujeira que pisamento de pé fez por ali. De menino, de velho, de andante, de turista, de infiel, de moça, de puta, de cantor e de pastor.

A água desce todinha, vai pela guia, encharca calçada e leva consigo marcas desnecessárias do que passou por ali. Acho q o festerê é mais que justo. Comemorar faxina, mandar embora o que já não serve. O que marca o chão e já estampa o feio.

Quero fazer faxina.

Com a maturidade a gente vai enxergando a escadaria da nossa vida cada vez mais pisada, mais marcada. Tem umas marcas boas, mas tem gente q pisa e faz estrago. Ou gente q senta , cruza as pernas, pede q sirvamos porções intermináveis do que temos de melhor em nós e se esbalda. Não tira o corpo estrebuchado do lugar nem pra acudir quando a gente cansa de tanto dar.

Nessa escada tem um bocado de gente q fica só pelo tempo q lhe é conveniente e depois sai saltitante porque colheu nos cantos as melhores flores que tínhamos.  Ou gente que volta de quando em quando só pra lembrar o quanto é bom se confortar no sombreiro que nossos degraus têm. Entre o sétimo e oitavo degrau: sombra refrescante, tijolinhos miúdos, vento com brisa de campo. É isso que oferecemos: sempre o melhor pra quem se recosta. Mas ali só é útil por tempo que cabe àquele que jura ficar pra sempre enquanto não vê adiante uma escadaria mais polida e menos torta. Vai, não se afortuna e volta. E aceitamos.

A gente se engana muito quando pensamos que todo lugar ocupado na escada é de gente que abriga amizade. Não. Eles vêm buscar, mas o que trazem consigo? Quantos deles regam, varrem, enfeitam? Quantos deles perguntam sobre a rachadura q tem no apoio da descida e se oferecem consertar?

Acontece que eu aqui, olhando no último dos meus degraus, bem aqui de cima, to vendo que tem muita coisa pra arrumar. Muita gente pra abraçar e pedir pra não ficar mais. Povo bom que já fez passagem mais tempo que deveria, mas agora já não fica mais ocupando lugar. Minha escada vista daqui tá cheinha. Gente que suspende faixa de amor, veja aquele ali. Aproveite e note o outro acolá abrindo a bebida pra brindar. Mais alguns que cantarolam e sorriem sem parar. Ou o fardado da tristeza q sempre e mais uma vez já me vem com história pra contar.

Mas eu to aqui, sentada com a mão no queixo só preparando meu tchau. To de olho naquele balde cheio d’água e bastante sabão porque quero limpar tudo que tem enchido minha vida sem precisão. Vai ser um esforço danado. Algumas despedidas mais duras que as outras, mas não posso adiar… O adeus tem que chegar.

Porque ,sabe, ando cansada de cuidar das plantas pra alguém pisar,cansada de dar autoridade pra escreverem palavra bonita e depois rabiscarem tudo por cima. Não quero mais bagunça, não quero mais estragos.

Eu quero é fazer faxina!

Quero ver água correr pro novo vir. Quero que fique só o que for bom. Quero comemorar toda limpeza q puder fazer e dar-me de presente a companhia de quem vale mesmo estar sentada(o), ou de pé, ou dançando em minha escadaria.

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Categorias: Crônicas na Mesa | Tags: , , , , | Deixe um comentário

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