Despedida


E tem lá os sábios monges, ou quem alcança alguma graduação em evolução, que defende o desapego. Que explica com  propriedade de causa que temos que andar de mãos vazias, mente serena e coração sem vagas reservadas por qualquer tempo que seja. Temos que caminhar por aqui como chegamos: sem nada nem ninguém.

Prático não? Assim ninguém sofre nem se frustra. Sem corações partidos, sem saudade, sem a conhecida angústia da falta. Falta do bem querer, do bom emprego, do carro querido ou do amigo que jurava que era fiel. Sem apego, sem lacunas dolorosas.

Acontece que o desapego é treino contínuo. É lutar contra um coração que bate forte, uma mente que grava bons momentos, boas conversas e boas conquistas. Desapego é saudar e viver o hoje em absoluto e saber que sim, ele vai acabar, que o sol vai se pôr e tudo aquilo virará cinzas.

Caí na armadilha do apego. Sim, logo eu que sou às margens do vento, que gosto de minha independência, me sabotei. Não ouvi o Universo, que preocupado, me alertou muitas vezes do risco. Quis apegar-me. Quis ferir-me. Eu quis pegar o lugar de Thalía de Maria do Bairro e sofrer.

E estudando minha própria tese de dor essa noite, cheguei a algumas conclusões e vim dividi-las porque gosto de todos vocês e quero que entendam porque a despedida de alguém ou de alguma coisa dói tanto.

Podem pensar que é saudade do que passou, que é indignação de não ter tido seqüência, que essa decepção advém de mais uma aposta incerta,.mais uma rodada de fichas perdidas. Alguma sombra disso pode sim afetar nosso emocional e fazer nosso coração ficar esbagaçado como mexerica degustada. Porém, descobri o que de fato nos faz cair por terra. O futuro.

Note que enquanto se está com alguém ou está em um bom emprego ou em uma boa casa, você pouco vive o presente. Pare e pense. Vive o presente numa parcela infinitamente menor do que ele realmente é.

Quando você está com alguém e é muito bom, você volta para sua casa, recosta-se e pensa no quanto foi bom o momento que PASSOU. Migra o passado para o presente que deixa automaticamente de existir e o pior? Aí que vem o “x” da questão: você automaticamente imagina quão bom serão as outras vezes. O que fará no dia seguinte, se deve ou não ligar, como será a mensagem que irá mandar. E dali uma semana? É melhor ou não sugerir aquela viagem? E o Natal, hein? Em que casa passarão? E daí desse ponto é muito fácil com mais 3 ou 4 encontros, com algumas boas horas de ligações, partir para a zona de perigo e alerta : nome de filhos e cor da cortina. Tudo é projetado no futuro.

Um bom emprego? Execute um bom trabalho hoje. Horas depois pensará pouco no que fez HOJE, ao invés disso vai projetar uma carga altamente desassegurada no futuro. Quanto mais terá de êxito? Como será quando conseguir determinada promoção e que carro comprará com isso? Opa! Mas e se perder o trabalho? E se entrar alguém que me prejudique nesse meio de tempo?  Quase toda nossa perspectiva de vida é baseada em passado e futuro, principalmente.

Não estou falando de não fazer planos, não é isso. Precisamos nos planejar sim, mas em cima do que temos VERDADEIRAMENTE no presente.E dentro de nossas possíveis limitações.

Dá pra imaginar sobre onde estaremos na nossa aposentadoria? Ou se o futuro filho do meio terá os pés iguais ao do seu recente amado? Não. A tese é essa: esse azedo que a gente sente, essa fraqueza e esse mal estar quase inconsolável vem do sonho que não se cumpriu.

É a saudade do que não existiu. Por isso a demora em compreender e muitas vezes, a extensão do prazo da tristeza.

O chororô vem daquela rede em Itamambuca que você não dividiu com ele, das milhares de fotos que vocês tirariam nas comemorações de Ano Novo vindouras. Na frustração dele nem sequer ter te dado a chance de mostrar como sabia mesmo fazer aquele jantar que tantas vezes imaginou fazer para ele. Tudo é enterrado. A confusão que deixa o raciocínio turvo também vem das lembranças latentes de um passado que está morto, mas que insistimos em acender vela.

É doloroso despedir-se de um futuro, ainda que imediato de duas semanas à frente, que você tinha quase certeza que ainda receberia as ligações, os torpedos e os e-mails com apelidos carinhosos. Difícil desfazer-se da saudade daquela cena que você tantas vezes projetou do seu amigo que participaria do seu 48º aniversário. E da viagem que fariam em dois anos.

A despedida que mais dói é do pacto que você fez com a felicidade. Felicidade que você julgou ter a participação de uma pessoa, de uma empresa, de um amigo… Só que lá na frente. Na frente que nunca existiu, mas que sua mente projetou.

E a única forma de evitar escorregar à beira de suas próprias ficções daninhas e escapar do belo tombo que só Deus sabe o quanto dói, é fazer um pacto de felicidade apenas consigo mesmo.

Porque você é única pessoa à qual nunca terá que se despedir.

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Categorias: Crônicas na Mesa | Tags: , , , | 3 Comentários

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3 opiniões sobre “Despedida

  1. Erika

    Lí do começo ao fim e achei de mais.
    Enquanto lia, lembrei de uma série de coisas que já me aconteceram e percebi que realmente é assim que muitas coisas funcionan. Você chora, senti falta, não das coisas que aconteceram, mas sim das coisas que poderiam ter acontecido e não vão acontecer mais ou então das coisas gostosas que com o passar do tempo mudou. Daí bate aquela saudades que te derruba e as vezes até sem motivo.
    É engraçado como as coisas acontecem…

    Adorei o post muito bom, parabéns pelo blog meninas!!

    Bjinhos s2

  2. Tati Bortoleto

    Muito bom… como sempre 🙂

  3. Lindo, Selma!

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